Desafios
Perguntas e problemas relacionados ao tema
Óptica
1) Às escuras (Ensino Médio)

Autor: Prof. Manuel Fernando Ferreira da Silva, Departamento de Física da Universidade da Beira Interior
mffs@ubi.pt

Uma folha circular de 2,6 cm de diâmetro flutua na água. Admitindo que a luz solar incide sobre a água uniformemente desde todas as direções, calcule o volume de água por baixo da folha que não recebe iluminação direta do céu. O índice de refração da água é aproximadamente 1,33.

Solução

A situação está representada na figura (a).

Os raios luminosos que incidem na interface ar-água são refratados, aproximando-se da vertical (normal à superfície da água). O maior ângulo de incidência é 90º; para esta situação limite, a lei da refração (lei de Snell) permite determinar o ângulo de refração correspondente ( na figura):

sendo n o índice de refração da água.

A zona não iluminada diretamente pela luz solar constitui um cone cuja base é precisamente a folha. A altura H desse cone obtém-se diretamente a partir do triângulo representado em (b), onde R é o raio da folha e D = 2R é o seu diâmetro:

Mas

O volume do cone pode ser agora calculado:

Substituindo valores numéricos, resulta

A porção de água não iluminada diretamente ocupa um volume de 2,0 cm 3.

2) Adônis (Ensino Superior)

Autor: Prof. Manuel Fernando Ferreira da Silva, Departamento de Física da Universidade da Beira Interior
mffs@ubi.pt

Um espelho plano está suspenso verticalmente no centro de um recipiente esférico, de paredes muito finas, cheio de água (índice de refração 4/3). O diâmetro do recipiente é 20 cm. Um observador, cujo olho se encontra a 100 cm do espelho, admira uma imagem do seu próprio olho, como se mostra na figura. Onde se encontra a imagem que ele vê, e quais as suas características?

Solução

Vejamos o que acontece a um raio de luz que sai do olho (isto é, que é refletido pelo olho):

I. Deslocamento desde o olho até a superfície esférica do recipiente, viajando da esquerda para a direita no ar.

II. Refração na superfície esférica do recipiente (interface ar-água).

III. Deslocamento desde a superfície esférica do recipiente até a superfície plana do espelho, viajando da esquerda para a direita na água.

IV. Reflexão na superfície plana do espelho.

V. Deslocamento desde a superfície plana do espelho até a superfície esférica do recipiente, viajando da direita para a esquerda na água.

VI. Refração na superfície esférica do recipiente (interface água-ar).

VII. Deslocamento desde a superfície esférica do recipiente até ao olho, viajando da direita para a esquerda no ar.

Ao entrar no olho, o raio de luz será percebido pelo observador, que verá a imagem do seu próprio olho. Nos processos II, IV e VI formam-se imagens sucessivas do olho. As duas primeiras são imagens intermédias; a terceira é a imagem final. Apenas esta última é acessível ao observador.

Analisemos os processos de formação de cada uma das imagens referidas.

Imagem (intermédia) formada no processo II:

A equação geral que descreve a refração numa superfície esférica é

onde n 1 é o índice de refração do meio onde viaja o raio incidente, n 2 é o índice de refração do meio onde viaja o raio refratado, o é a distância objeto (“distância” entre o objeto e o vértice da superfície esférica), i é a distância imagem (“distância” entre a imagem e o vértice da superfície esférica) e R é o raio de curvatura (“raio” da superfície esférica). As quantidades o, i e R podem ser positivas ou negativas, de acordo com a convenção de sinais compatível adotada. Neste caso, n 1 = 1, n 2 = 4/3, o = +90 cm (100 cm - 10 cm, com sinal positivo porque o objeto está localizado no lado em que viaja o raio incidente – é um objeto real) e R = +10 cm (com sinal positivo porque o centro de curvatura da superfície esférica está localizado no lado em que viaja o raio refratado). Logo,

A primeira imagem é real, e está localizada 60 cm à direita do vértice da superfície esférica, isto é, 50 cm à direita (por trás) da superfície plana do espelho. Esta imagem vai desempenhar o papel de objeto no processo IV.

Imagem (intermédia) formada no processo IV:

A equação geral que descreve a reflexão num espelho plano é

i' = - o'

onde o' é a distância objeto (“distância” entre o objeto e o espelho plano) e i' é a distância imagem (“distância” entre a imagem e o espelho plano). Novamente, as quantidades o' e i' podem ser positivas ou negativas. Neste caso, o objeto é virtual (está localizado no lado oposto àquele em que viaja o raio incidente), pelo que o' = -50 cm e, em consequência,

i' = -(-50) = +50 cm

A segunda imagem é real, e está localizada 50 cm à esquerda do espelho plano, isto é, 40 cm à esquerda do vértice da superfície esférica. Esta imagem vai desempenhar o papel de objeto no processo VI.

Imagem (final) formada no processo VI:

A equação geral que descreve a refração numa superfície esférica é, novamente,

Neste caso, n 1 '' = 4/3, n 2 '' = 1, o'' = -40 cm (com sinal negativo porque o objeto é virtual, já que está localizado no lado oposto àquele em que viaja o raio incidente) e R = -10 cm (com sinal negativo porque o centro de curvatura da superfície esférica está localizado no lado oposto àquele em que viaja o raio refratado). Logo,

A imagem final é real, e está localizada 15 cm à esquerda do vértice da superfície esférica, ou seja, 75 cm à direita do olho do observador. Será nesse ponto que o observador verá a imagem do seu próprio olho.

Para obter as características dessa imagem, temos de calcular os aumentos transversais produzidos em cada um dos processos II, IV e VI. Assim,

Logo, o aumento transversal total produzido pelos três processos é

o que significa que o observador vê uma imagem invertida, e quatro vezes menor, do seu olho.