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O Cruzeiro do Sul é uma cruz?
Publicado em: 30 Abr 2010
As constelações têm grande importância histórica e cultural, já que foi a partir da observação das estrelas que o ser humano encontrou as primeiras formas de registrar a passagem do tempo – e soube determinar, por exemplo, quando certa época do ano se aproximava ou estava terminando, o que ajudava na previsão de períodos de cheia dos rios, de plantio e de colheita. Atualmente, a humanidade dispõe de diversos recursos para registrar a passagem do tempo ou reconhecer as características de uma determinada época do ano. As constelações, entretanto, continuam a marcar determinados eventos. Órion, por exemplo, que para os observadores do Hemisfério Sul é visível durante todas as noites serenas de dezembro, marca a ocorrência do verão neste hemisfério. Cada constelação traz associada a si uma história, principalmente as criadas na Antiguidade: o Cocheiro, por exemplo, representa um pastor e a estrela Capela uma de suas cabras; Órion é um caçador, que vem acompanhado de seus cães, o Cão Maior e o Cão Menor – duas outras constelações. No entanto, quando olhamos para a constelação de Órion, por exemplo, podemos afirmar que as estrelas que a constituem encontram-se próximas entre si? Ou ainda, tudo mais que pudermos observar em uma constelação, como aglomerados, nebulosas ou galáxias, encontra-se formando um conjunto, constituindo, portanto, a constelação? Esse assunto é abordado no artigo “ Será o Cruzeiro do Sul uma cruz? Um novo olhar sobre as constelações e seu significado”, escrito por Marcos Daniel Longhini, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia, e publicado na revista Física na Escola, v. 10, n. 1, 2009. Para ilustrar o problema, o autor sugere a construção de um modelo que representa, em escala, as diferentes distâncias a que as estrelas de uma constelação se encontram de nós. O exemplo de montagem usa uma constelação muito conhecida: o Cruzeiro do Sul. O Cruzeiro do Sul ou Crux é a menor das constelações e é relativamente fácil de ser encontrada no céu devido ao seu formato característico. Na época das grandes navegações, foi usada – assim como outras constelações – para auxiliar os navegantes a se guiarem pelos mares*. A utilização de constelações como referência espacial ganhou força à medida que a observação atenta levou o ser humano a concluir que as estrelas não mudam suas posições relativas, formando configurações inalteráveis no decorrer do tempo – isso não quer dizer que a posição das estrelas seja infinitamente imutável no tempo e a aparência da constelação nunca mude. Esses astros possuem um ciclo de vida próprio, com um tempo limitado de existência, e durante sua ‘vida’ possuem um movimento muito lento no céu, muitas vezes imperceptível no curso de uma vida humana. Mas que elementos determinaram as figuras que deram nome às constelações e auxiliam no reconhecimento das configurações formadas pelas estrelas? Ora, é preciso que entendamos que as constelações são agrupamentos aparentes de estrelas, os quais as diferentes culturas, no decorrer de distintas épocas, imaginaram formar as mais diversas figuras, como pessoas, animais ou objetos. Fala-se em agrupamento aparente porque as estrelas, além de encontrarem-se a enormes distâncias de nós – a estrela Rigel, a mais brilhante da constelação de Órion, está a 900 anos-luz –, também estão, na maioria das vezes, muito afastadas umas das outras. Para se ter uma idéia, a vizinha mais próxima do Sol é a Próxima do Centauro, que está a 4,3 anos-luz! O Cruzeiro do Sul é, aparentemente, constituído por cinco estrelas, mas outros astros estão localizados na região delimitada por esta constelação. Dependendo das condições de luminosidade do local onde se fizer a observação ou até mesmo do instrumento utilizado, muitas outras estrelas podem ser vistas, ou até mesmo outros objetos celestes, como a Caixa de Jóias, um aglomerado de estrelas a aproximadamente 7700 anos-luz de distância. Com a atividade proposta no artigo da FnE é possível representar, com LEDs, as cinco estrelas mais significativas do Cruzeiro: a Estrela de Magalhães, que, na verdade, é uma estrela dupla; a Rubídea; a Mimosa; a Pálida e a Intrometida. Como cada uma dessas estrelas (ou sistema) está a uma determinada distância da Terra, o modelo revela que, apesar de elas pertencerem à mesma constelação, estão a distâncias significativas entre si. No entanto, ao serem observadas, aparentemente juntas, formam uma cruz, graças ao efeito de perspectiva. A montagem, portanto, além de esteticamente motivadora, auxilia na desmistificação da idéia de que as constelações são conjuntos de estrelas e mostra que a beleza do Cruzeiro vai muito de sua aparente forma de cruz. * Para saber como se orientar pelas estrelas, acesse http://cdcc.sc.usp.br/cda/ensino-fundamental-astronomia/parte1a.html |